Reunião Organizativa

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Carta aos camaradas

“Na luta diária, vivemos em guerra, a qual declarada pelos marajás…”
P. Henrique- Pantanal

A burguesia, a elite, os dominantes, os poderosos, os patrões, os detentores dos meios-de-produção, além de extraírem do nosso suor lucros exorbitantes pela exploração do nosso trabalho, necessitam da nossa submissão à crise do sistema proposto por eles- o capitalismo.

Nós que temos no peito, além da mama, marcas da campanha de alienação e opressão; nós que criamos, procriamos, produzimos, reproduzimos; nós que temos a mão e o corpo cada vez mais petrificados para servir na edificação dos castelos destes reis; nós, vagabundas, vadias, criminosas, vândalas, lutamos para que a nossa história não seja detida e pra que nossa memória não seja só da “saudosa maloca”.

Não se submeter a este estado de escravidão depende, contudo, da nossa capacidade de organização e, assim, multiplicar-nos!

Neste sentido, viemos através desta carta, compartilhar com as entidades de classe, grupos, coletivos, autônomos, enfim, com os lutadores, o mais do mesmo: a criminalização daqueles que não se submetem a vida de opressão!

Marcha das Vadias de Guarulhos, dia 8 de Junho de 2013, mesmo dia da Marcha da Maconha de São Paulo, prisão, agressão e assédio da polícia militar. Como se não bastasse, o Estado de Direito agora intima a vadias para deporem por ato obsceno, desacato, entre outros- fora a convivência com os PMS dia após dia nas ruas por onde moramos.

Afinal, ser vadia na periferia também é: ser excomungada, levar pedradas, perder noites de sono nos estupros rotineiros e nos trabalhos sexuais, além, claro, de não contar com o capital que asseguraria a defesa jurídica.

Esta singela denuncia reflete a insegurança e o apelo nosso de ajuda na publicização dos acontecimentos e no compromisso para superarmos!

Por uma campanha contra a criminalização da mulher da luta!
Por uma campanha financeira que nos dê independência!

https://www.facebook.com/MarchaDasVadiasGuarulhos

Antecipadamente, agradecemos.
Há-braços, há-perna, há-mão,
Há um corpo inteiro precisando da revolução!

Vadia Maria Madalena

Aconteceu – Marcha das Vadias Guarulhos 2013

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Era Oito de Junho de 2013 no Marco Zero da cidade de Guarulhos, não era uma tarde comum na igreja Matriz, uma parede de carros policiais e religiosos rodeavam a igreja. Uma carta foi enviada pela arquidiocese às autoridades, solicitando que a marcha fosse removida daquele local ou que providenciassem proteção para que o “solo sagrado” não fosse invadido. Alguns policiais que estavam na concentração mexiam e piscavam com as meninas da marcha, outros questionaram o trajeto e o horário da marcha.

Era um ato como todos outros, faixas e cartazes com palavras de ordem e protestos eram feitos e empunhados e ninguém entendia o porquê de tamanha “proteção” em volta da igreja. Foi feito um jogral relembrando vitimas de violência. As 16h a marcha saiu, caminhando pelo calçadão da Av. Dom Pedro II, pessoas questionavam e se informavam sobre o que ocorria. Tudo acontecia pacificamente.

A marcha parou em roda, megafone aberto para depoimentos, mulheres se manifestavam contando o motivo de estarem na marcha, relatando casos de violência que sofreram tal como amigas e parentes. Um policial interrompe o momento e questiona sobre uma manifestante que fazia topless, alegando que ela seria presa se não se vestisse, a policia partiu em direção a manifestante de topless, então todos os outros manifestantes se posicionaram em frente à garota, que conseguiu se afastar, logo em seguida partiram para cima de outra manifestante completamente vestida que estava fazendo uma faixa, violentamente puxaram-na pelo pescoço sem alegar motivo algum enquanto todas perguntavam qual era a acusação e tentavam impedir a prisão.

A manifestante foi levada para o primeiro DP e a marcha seguiu juntamente para a delegacia. Impediram que houvesse alguma companhia para a garota detida, não repassavam quase nenhuma informação. Em frente à delegacia como protesto foi organizado um “peitaço” com as manifestantes que permaneciam em vigília, neste momento nenhuma manifestante foi presa. Minutos depois os policiais chamaram a primeira manifestante que havia feito top-less para “conversar” e a detiveram também.

Durante todo o tempo que as garotas permaneceram na delegacia ouviram ofensas, foram assediadas ouviram que eram feias, que eram mal educadas e que não queriam colaborar, pois decidiram esperar a chegada de um advogado que não foi oferecido. Enquanto quem permanecia em vigília também ouvia ameaças dizendo que “bastava uma bomba” para dispersar as manifestantes da porta do DP.

Depois de aproximadamente quatro horas, as manifestantes assinaram o termo de compromisso e foram liberadas, seguindo para o Hospital Médico de Urgências  para fazer exame médico, pois tinham marcas pelo corpo devido à truculência policial.

Não foi cogitada a possibilidade de protestar no entorno ou dentro da igreja. Ficou claro que a força policial não era para nos proteger. A marcha estava a mais de 200 metros da igreja quando houve a primeira prisão. A autoridade policial se moveu conforme o pensamento da carta escrita pelo pároco Antônio Bosco da Silva, interrompendo o nosso direito de gritar por liberdade e pela autoridade sobre os próprios corpos.

A marcha viu de perto o que o patriarcado faz todos os dias com as mulheres em delegacias, o quanto o nosso estado não é laico e a caça as bruxas que ocorre em 2013, pois mulheres dizendo o que pensam é ameaça passível de uso de violência.

Será convocado novo ato. Amanhã vai ser maior.

Coletivo Marcha das Vadias Guarulhos.

O corpo é meu!

Muito se fala sobre a Marcha das Vadias ter sua causa desvalidada pela maneira que as mulheres decidem protestar. Muito se comenta que não se adquiri respeito estando vestida com poucas peças de roupas, ou praticando top-less.

Já pararam para pensar que esta monitoração e vigilância sobre o corpo da mulher não ocorre da mesma forma com o corpo dos homens? Já ouviu alguma vez alguém dizer para um homem que ele deve “se dar ao respeito” por andar na rua sem camisa?

Ser mulher é algo difícil, quando se há tanta carga de machismo carregada na mente das pessoas, sem que elas se deem conta da própria opressão praticada.

Há uma mercantilização e algumas pré definições de como deve ser utilizado e quando o corpo da mulher pode ou não ser exposto. É de interesse da indústria da moda, cosmética e da mídia que apenas corpos perfeitos sejam visíveis em outdoors, comerciais, desfiles, novelas, revistas, fazendo uma distorção da realidade que conhecemos bem. Fazendo com que algumas de nós queiramos alcançar ideais de “beleza”, que não fazem parte da nossa realidade.

Uma marcha Feminista, onde com ela se iniciará um questionamento pessoal por quem integra e a vê passar, é isso que diferentes tipos de corpos expostos fazem pensar. É ver que uma mulher como eu, ou acima do meu peso aprendeu a se aceitar e não tem vergonha de estar fora do padrão escolhido como aceitável, ela também pode se expor, e esta exposição é subversiva, muitas vezes choca, muita gente se ofende e não sabe nem porque, não entende os gritos de liberdade, não entende que tirar as roupas que nos impõem serem vestidas é mostrar que todas podem se amar como são.

Então meu corpo não vai servir apenas se estiver no seu padrão, então meu corpo vai servir mais do que para procurar defeitos em frente ao espelho, meu corpo é instrumento de luta e vai fazer pessoas refletirem o motivo de sua exposição (ou não né, porque também tem muita gente com preguiça de pensar), meu corpo carregado de estrias, celulites, flacidez e história será minha arma contra o seu moralismo antiquado, que quer mandar sobre o que só eu tenho o direito de decidir.

É quando se expõe o que alguns podem pensar que são valores e moral, mas não passa de um machismo velado, ocultado sobre normas que mulheres devem seguir, normas impostas por quem?

Se ainda continuam achando que minha luta é menor porque meu corpo está exposto, que mereço menos respeito por isso, tenha certeza que por este mesmo motivo continuarei lutando e me expondo o quanto achar necessário, pois RESPEITO é direito de todos, independentemente da forma que se está vestido, independentemente se alguém está vestido ou não.

Se você acha que uma mulher pode ser desrespeitada pelo tamanho da sua saia, que alguém “pede” para sofrer abuso sexual por se vestir como quer, então é por isso que a marcha vai caminhar passando por cima do seu machismo, gritando bem alto O CORPO É MEU, e fazemos com ele o que bem entendermos.